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28 outubro, 2017

para de me repetir
essa mesma história que 
a gente cresce e vira uma árvore só 
e eu enraizo no teu caule e cresço e te levo comigo 
e você me leva também 
que sou filha de mãe solteira
e quando você fala disso me dá medo de ser verdade
da gente morrer juntos 
eu quero te matar 
Pelo menos 
três  vezes por dia 
mas eu ainda não quero morrer porque eu tenho medo
de morrer 
e de crescer 
e de enraizar 
eu tenho medo de tanta coisa 
inclusive de homem
me repete que amor é vulnerável 
e que amor é aquele hiato entre ódio e a gente deitado falando daquela casa
e ouvindo small town boy devagar no toca disco
que agora só toca ciranda 
me fala que  amanhã você não sabe 
repete que você gosta do meu jeito de mexer as mãos
e que você não tem inveja deles falando de planos
porque é melhor falar de política que de planos
me fala por favor que amanhã você não sabe
que tanto faz
sempre 

21 julho, 2017

me corre
com a ponta desses dedos
feios
e ve nos dois
deitados
me enconsta
com esse medo
de quebrar a barragem desse rio
que ri pra você
e vai e te envade
e a gente
faz amor
no ar
no espaço entre
o teu
café
e o meu

12 julho, 2017



Ainda aquele silêncio dos dias que tive medo de ficar
Acordando às 5:17 todo dia
Era tudo tão azul e eu ainda lembro do cheiro daquela madeira no banheiro e da televisão
Estragada e de tudo que eu botei pra fora tomando meu café e o sol
E sem ter nada além de nós e daquele puta mundo gigante
Dentro
E fora
E eu estico meu braço por cima da cabeça deles e alcanço a mim e a nós e eu me prometo felicidade
Eterna
Ou talvez eu só posso mesmo  me prometer continuar viva e continuar indo a encontro daquele fatídico
Momento em que deu tudo errado e a gente começa do zero. Eu não queria mas sou um pouco dessa dor incurável que está acostumada - e muito bem obrigada, a preencher um monte de vazio
Com um monte de coisa inútil e o melhor de tudo isso é que eu eu estico tudo que tenho
O braço e tronco o pescoço em direção a qualquer coisa que você me disser que eu vou gostar
Eu virei mesmo tudo aquilo que estica o corpo e o tronco e pega no alto da árvore o resto
Do resto
Daquela esperança que a gente tem de não viver relações miseráveis.
Me lanço e desapareço naquele azul daquele dia
Que eu tive um medo
Mas eu jurei eu me jurei
Felicidade eterna


Beautiful stranger


Cheguei.
Sim eu cheguei mas era como se algo não tivesse chegado. Não a tempo de me despedir
De quem
Eu
Era
Ainda antes desses dias longe de casa ficarem de repente perto de casa
Eu sangrei.
Muito
Depois de mais de 300 ciclos lunares devolvo com honra esse sangue que
Agora
Me é demais
Que me diz que é a hora de tomar o próximo passo
Mas não há passo nenhum. Eu deveria morrer
Talvez de alegria
Mas ainda
No fim da viagem
Antes de você ver a melhor versão que nasceu de mim
e eu não  quero te
decepcionar
Mas eu ainda quase no fim
Foi um presente
Eu vi esse tanto de amor que tem aqui
Eu vejo nas cidades e eu vi na areia
E vi no carro
Na casa
E por onde aquele ônibus velho passou
No olho e eu não quero te decepcionar
Mas eu tenho visto tanto amor
Que eu até sangrei
Antes de você conhecer a melhor versão que nasceu de mim nesse tempo todo
Antes de o longe virar perto
De novo

11 julho, 2017

03 novembro, 2016

categórica. I am becoming a sayer. Quase escrevi becoming com dois ms.
O alemao, as consoantes, a arte. Nao que eu sou artista, por favor. Mas se a gente é composto daquilo que a gente ve e se ocupa, entao eu sou.
Confeiteira eu poderia ser também, mas é pouco abstrato. Muito estável e sem ocilacoes. Fato é que a gente vai, faz aqui, de lá. Conversa sobre a tal da arte, que merda.
Antes da exposicao nao. Só depois. Mas ai tem a cena que nao curte exposicao, acho massa. Acho leve, democrático, livre. Mas nao acho revolucionario.
De tempo e tempo lembro de todos os filmes que eu tenho que revelar e depois passar as fotos pro computador e vai que tem uma foto revolucionaria lá.
Nao tem rapaz.
Ou penso em fazer de novo a prova pra universidade de artes livres.
Tenho um puta de um conceito.
Nao é revolucionario,
Nada mais é, cabo. Liquidez, pós modernidade, 30´s are the new 20´s. Nada muda nada.
tudo fica como está. Estado de inercia antes da explosao.
Ou preguica mórbida antes da vontade de correr.
Ou o silencio antes do ataque do colérico.
Definindo o que seja definivel. O mundo tá pra explodir, tudo existe, poe no google. Tá pronto "überflutung". Todos os buracos pros quais a chuva corre estao fechados. rio subiu, tá todo mundo morrendo. Nao que eu ache feio, acho lindo. Tá tudo muito louco, nunca achei que eu fosse ver isso. Imagina entao a avó do pai dos meus filhos, que foi conhecer plástico depois do quarenta. Agora ela tem noventa. FORAM OS CINQUENTA ANOS MAIS LOUCOS DO MUNDO.
E foi, tá sendo. Gratidao por estar aqui.
Lembro do dia no carro o assunto era a palestra, encontro, explicacao, aula, no boteco - do cara que entendia sobre a arte e identidade nacional. E esse cara dizia. Todos esses caras ai, que voces e eus estamos ligados: Da vinci, van gogh e toda a turma, Tudo farca. O pais, ainda mais de colonizador, precisa de identidade. Pega uns cara, bota nuns livro e diz que foi fera e o cara vira fera. Podia ser eu, ou o cara que pixa NEU em toda Düsseldorf.
Podia, nao foi, azar. Entao arte, tem que ser, só pode. estado de espirito. Elevacao, transitar entre dimensoes, sentir fisicamente toda essa porra que essa é coisa chamada espirito ou arte ou pira faz a gente sentir. Artista é o cara que humaniza esse estado ai. E TEM QUE HUMANIZAR O PROCESSO.
Isso ai é revolucionaio. Tem que dar forma, dividir, oferecer. Dar forma, nao tem como ter conceito e nem tecnica. É PROCESSO! Humanizou o processo, falou, deu um abraco, fumou um cigarro, sentiu.
é tudo e é o muito que eu tenho a dizer. O processo pode, sim, nao precisa, nao deve, tomar forma.
O processo tem que ser constante. Viajante, artista, ve a coisa toda - interpreta. Corre, dói, nao dá pra fugir. Dá depois uma tristeza, acha que tem que sofrer, porque é tudo muito bonito. Mas dói tudo demais na gente.
Mas artista nao vive de amor. Vive sim, vive, e morre todo dia, é ruim demais. Nao queria que virasse textinho tipo manifesto, imperativo, classificacao, justificacao. Mas nao pode meter arte junto com essa coisa chamada trabalho. "temqueganhardinheiro":
É que arte é torta. A gente tem que ganhar dinheiro porque o cara do mercado quer dinheiro de mim em troca do arroz, tá certo. Aqui nao vai pra cadeia se roubar arroz, mas nem se fosse, nao quero ter que roubar arroz. Mas essa é uma outra pira. Trabalho, mais valia, estruturar essa coisa ai que a gente ouve desde sempre e que a gente chama de arte, de acordo com o trabalho é uma falta de ética, respeito, vergonha, caráter.
Pensa duas vezes.Todo mundo trabalha demais, muito, tem que trabalhar menos. Mas até o cara que trabalha muito e está ficando louco, pirado, cansado e comeca a trabalhar menos ele chega em casa e ele para de ser aquilo que ele era no trabalho. O artista nao, ele é, todo tempo. Ainda mais em fase criativa, de processo, de estar ali na pira, vai fazer analise qualitativa e quantitativa do trabalho do artista. como?
Tem que esperar pra ver o que vai dar.





13 outubro, 2016

(a nova ) viagem rumo ao novo ser.

Nasce um bebe, nasce uma mae. O parto é portal de passagem pra essa transformacao.
Mas eu já tinha vivido um parto. Longo, lindo, empoderado. Mas eu já era mae, já tinha atravessado o portal, já me achava a sabidona-cuidadora-de-bebes. Mas a vida, ah a vida, essa bandida - depois de 25 anos continua me pregando pecas. Eu ouvi a gravidez inteira que o parto do segundo é moleza. O baby escorrega. Mas, claro, que filho, pelo menos meu, nasce pra me virar do avesso. A gravidez do nosso menino correu bem. Nessa gravidez eu me senti linda, forte e poderosa, amamentei a mais velha um bom tempo. Com dois meses de gravidez viajamos para o leste Europeu passando por cinco paises, de carro, dormindo na estrada. Dormi pouco, comi pouco e vi muito. Ficamos um mes na estrada e quando voltamos já estava no magnifico segundo semestre.
Que delícia, era verao, a barriga crescendo e eu andando por tudo de bicicleta. Dessa vez fizemos todo o pré natal com a parteira. Sem ultrassom, sem neuras.
Eu já sabia do que precisava e fui me preparando em paz. Deixei tudo pronto pra chegada do baby já com 30 semanas. Eu sabia que fim de gravidez é punk e ainda mais com uma pequena. no auge dos Terrible Two, que, por escolha nossa, nao ia pra escolhinha. Eu fiz um curso lindo, com uma mulher maravilhosa, sobre parto e puerpério. Como foi importante durante essa gravidez a presenca de outras mulheres. Inspiracao e forca. Mulheres fortes se ajudam. Isso fez muito sentido.
Minha mente estava clara, corpo pronto, medos jogados fora.
Foi chegando o momento dele nascer e o bicho foi pegando. O nervosismo aumentando, os conflitos e também as crises emocionais da pequena - meu, nosso, espelho.
Me organizei ao máximo para o puerpério, organizei ajuda, fizemos compras pra bastante tempo.
Mas quando chega o momento , nao adianta, a gente nunca está pronto. Se tivesse nao teria graca e nao seria vida.
No dia 20 de janeiro, quando o Maksim colocou a chave na porta, perto das 22:00, as contracoes comecaram.
Como eu sempre dizia durante a gravidez: O parto só comeca quando voce chegar.
Pois é. Dito e feito. Pareceu mágica.
Fui acendendo as velas, colocando a musica, comi um pouco e pirei de medo.
Piramos.
Nenhum de nós estava ligado que em poucas horas teriamos um novo integrante da família.
Uma família que nos custou muito trabalho para se arrumar. Estavamos lá, cada um com seu lugarzinho.
Pra que mais um integrante? Pra baguncar toda a organizacao?
O fato é que as contracoes estavam ficando insuportáveis. Eu já tinha ligado para a parteira, perto da meia noite e ainda nao estava com cara de parto.
Eu sabia disso e o Maksim também.
Mas vem cá, bebe nao nasce quando mae e filho estao prontos? Sim.
Mas eu nao estava e sabia que aquelas proximas horas seriam necessarias para ajeitar algumas pecinhas no quebra cabeca da minha vida.
O parto do Cisco comecou com violencia.
Comecou depois que limpei toda a escadaria do predio e o nosso porao.
As entranhas, o coracao. Ele foi estourando tudo.
ele, sem nome, pra nós ainda sem sexo.
E mesmo relutando a energia masculina estava ali, lutando contra a minha energia feminina. Eu precisaria dessas doze horas de um trabalho de parto, muito intenso, pra nao lutar e sim sintonizar.
Eu quis uma menina até o momento que eu vi aquele pintinho. Eu, que nunca tive muitas figuras masculinas na vida, ter filho homem? Educar um homem, nesse mundo machista que já me causa tanta dor?
No auge da minha negacao ao Masculino eu ia parir um homem. Casar significou, também, se separar, primeiro, do meu pai. Coisa que durante a gestacao ainda nao estava resolvida.
E foi assim.
Enquanto eu esperava que o parto ficasse com cara de parto bonito, o parto foi acontecendo.
Perto da uma da manha eu decidi que queria ficar sozinha. Mandei Maksim ir domir com a pequena. Falei pra parteira ir embora e me deixar com um pouquinho de analgesico e florais de Bach.
E me entreguei. Eu precisava disso.
Sentei na poltrona da sala.
Sozinha.
E por oito horas eu fiquei sentada. Só loevantava pra ir pro chuveiro.
No meio da casa, no meio da rua, no meio da cidade que me resignificou.
Era pra eu estar aqui, parindo meu menino, nesse lugar. Agora.
A contracao vinha e eu respirava.
A pedrinha que caia no lago, A flor que abria. Vai abrindo tudo.
Frio, calor, medo.
Eu dormia um tiquinho, acordava e lá vinha ela me destruindo. A contracao. Que odio que eu sentia dela.
E eu respirava mais uma vez.
Assim fomos - eu, o utero e o nosso menino, sendo pedrinha no rio, sendo a flor que abre, sendo dor.
No chuveiro a água caia nas minhas costas e mesmo estando sozinha eu me sentia amparada.
No parto da Norah eu tinha pavor de ficar sozinha, sempre tinha alguem durante as contracoes comigo. Dessa vez eu era a fortaleza. Eu sabia do que precisava.
Quando eu vi já eram sete horas da manha.
Esperei dar oito horas e acordei o Maksim. Sim, estava perto.
O sol veio transformar o parto em cara de parto, bonito, daqueles que a gente ve e se apaixona.
Ligamos a musica alto. Eu abracei o pai dos meus filhos. Ele me deu chá, me lavou, me acalmou.
Ele vestiu nossa menina e levou para a mae da nossa amiga, e fotografa do parto, ficar com a pequena.
Depois chegou ela, a Natalia, amiga e fotografa e logo senti a forca do feminino me abracando. Eu chorei e disse: "Caso eu esteja pouco dilatada a gente chama o taxi e eu quero uma cesárea, entendido?"
Ela me consolou e disse que já devia estar acabando.
E logo, pouco depois das dez horas, chegou a parteira e o exame de toque denunciou: quatro centimetros.
Eu gritei.
Praguejei.
Pedi pra morrer.
Nao queria mais sentir dor.
Eu tinha passado a noite inteira com contracoes pra ter dilatado só 4 cm?
Chegara o momento crucial. A transicao. O momento da covardia, do medo, da anestesia, da cesarea.
E o dotozinho continua a dizer que o periodo de transicao acontece com 10 cm.
A transicao, aquele momento da fase de dilatacao pro expulsivo, acontece quando a mulher está segura. O meu momento foi ali, quando eu sabia que a parteira estava do meu lado.
Mamiferas em perigo ficam dias e dias em periodo de dilatacao e se nao estiverem seguras nao dilatam.
Em meia hora eu pedi mais um toque. Dilatacao total, 10cm.
Eu dilatei seis centimetros e meia hora. Porque ela, a parteira, estava ali.
Perto das onze chegou a segunda parteira, elas sempre trabalham em duas.
Alivio.
Eu podia parir meu menino.
Ouvia o making off de quatro adultos tentando encher uma piscina de crianca. Eu quis rir, aliás, ainda nao sei se ri.
Estava nesse momento cantando "...tao bonito, quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo": Era hora de ver a carinha dele. Eu estava na partolandia.
Fui pra piscina. água quente.
Pouca água.
E já vinha o puxo e eu gritava. Que desespero, nao tinha nenhuma posicao que me acalmasse. Eu tudo que vinha na minha cabeca era a frase em alemao "Was habe ich mir angetun" que diz "o que foi que eu fui fazer comigo mesma". Que dor!
A contracao ia e eu me acalmava, ria.
E vinha puxo e eu respirava fundo e ele nascia devagarinho. Eu sentia a cabeca, que alivio. Ele vinha. E quando ele vinha nao tinha mais dor.
Na hora que a cabecinha dele saiu eu dei um pulo.
Nao queria parir na água. Mas ele já estava ali. Nasceu meio na água, meio no ar. 11:44.
Era ele, todo meu, todo nosso. A parteira amparou e deu pro pai. O pai deu pra mim.
Nao acreditei.
Olhei.
Estranhei,
O reconheci.
Me apaixonei.
Meu menino.
Tao importa o nome, era ele, sempre soube.
De fundo tocava a musica "te amarei de janeiro a janeiro". Na virada pra Áquario, dia 21 de janeiro. Ascendente em Touro e lua em Capricornio.
Como pude imaginar minha vida sem ele?
O narizinho largo, em respeito aos ancestrais.
Enquanto escrevi esse texto ele cresceu.
Foram 9 meses escrevendo um pouquinho de cada vez.
9 meses e o parto ainda está em mim. Inacreditavel. O Cisco ficou um mes sem nome. E uma noite antes de decidirmos eu sonhei com um meninho que engatinhava e o pai o chamava de Leao. No dia seguinte a avó deu a ideia do nome; Leonid. Significa filhote de leao.
Era pra ser.
E o segundo nome: Francisco é pra ter nome de santo. Como disse seu Chico, meu avo. De quem ele herdou o narizinho e o nome.
E hoje, revendo as fotos do parto decidi terminar esse texto. Momento importante para nós dois. Cisco existe quase mais tempo fora da barriga que dentro.
E o amor só cresce.