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13 outubro, 2016

(a nova ) viagem rumo ao novo ser.

Nasce um bebe, nasce uma mae. O parto é portal de passagem pra essa transformacao.
Mas eu já tinha vivido um parto. Longo, lindo, empoderado. Mas eu já era mae, já tinha atravessado o portal, já me achava a sabidona-cuidadora-de-bebes. Mas a vida, ah a vida, essa bandida - depois de 25 anos continua me pregando pecas. Eu ouvi a gravidez inteira que o parto do segundo é moleza. O baby escorrega. Mas, claro, que filho, pelo menos meu, nasce pra me virar do avesso. A gravidez do nosso menino correu bem. Nessa gravidez eu me senti linda, forte e poderosa, amamentei a mais velha um bom tempo. Com dois meses de gravidez viajamos para o leste Europeu passando por cinco paises, de carro, dormindo na estrada. Dormi pouco, comi pouco e vi muito. Ficamos um mes na estrada e quando voltamos já estava no magnifico segundo semestre.
Que delícia, era verao, a barriga crescendo e eu andando por tudo de bicicleta. Dessa vez fizemos todo o pré natal com a parteira. Sem ultrassom, sem neuras.
Eu já sabia do que precisava e fui me preparando em paz. Deixei tudo pronto pra chegada do baby já com 30 semanas. Eu sabia que fim de gravidez é punk e ainda mais com uma pequena. no auge dos Terrible Two, que, por escolha nossa, nao ia pra escolhinha. Eu fiz um curso lindo, com uma mulher maravilhosa, sobre parto e puerpério. Como foi importante durante essa gravidez a presenca de outras mulheres. Inspiracao e forca. Mulheres fortes se ajudam. Isso fez muito sentido.
Minha mente estava clara, corpo pronto, medos jogados fora.
Foi chegando o momento dele nascer e o bicho foi pegando. O nervosismo aumentando, os conflitos e também as crises emocionais da pequena - meu, nosso, espelho.
Me organizei ao máximo para o puerpério, organizei ajuda, fizemos compras pra bastante tempo.
Mas quando chega o momento , nao adianta, a gente nunca está pronto. Se tivesse nao teria graca e nao seria vida.
No dia 20 de janeiro, quando o Maksim colocou a chave na porta, perto das 22:00, as contracoes comecaram.
Como eu sempre dizia durante a gravidez: O parto só comeca quando voce chegar.
Pois é. Dito e feito. Pareceu mágica.
Fui acendendo as velas, colocando a musica, comi um pouco e pirei de medo.
Piramos.
Nenhum de nós estava ligado que em poucas horas teriamos um novo integrante da família.
Uma família que nos custou muito trabalho para se arrumar. Estavamos lá, cada um com seu lugarzinho.
Pra que mais um integrante? Pra baguncar toda a organizacao?
O fato é que as contracoes estavam ficando insuportáveis. Eu já tinha ligado para a parteira, perto da meia noite e ainda nao estava com cara de parto.
Eu sabia disso e o Maksim também.
Mas vem cá, bebe nao nasce quando mae e filho estao prontos? Sim.
Mas eu nao estava e sabia que aquelas proximas horas seriam necessarias para ajeitar algumas pecinhas no quebra cabeca da minha vida.
O parto do Cisco comecou com violencia.
Comecou depois que limpei toda a escadaria do predio e o nosso porao.
As entranhas, o coracao. Ele foi estourando tudo.
ele, sem nome, pra nós ainda sem sexo.
E mesmo relutando a energia masculina estava ali, lutando contra a minha energia feminina. Eu precisaria dessas doze horas de um trabalho de parto, muito intenso, pra nao lutar e sim sintonizar.
Eu quis uma menina até o momento que eu vi aquele pintinho. Eu, que nunca tive muitas figuras masculinas na vida, ter filho homem? Educar um homem, nesse mundo machista que já me causa tanta dor?
No auge da minha negacao ao Masculino eu ia parir um homem. Casar significou, também, se separar, primeiro, do meu pai. Coisa que durante a gestacao ainda nao estava resolvida.
E foi assim.
Enquanto eu esperava que o parto ficasse com cara de parto bonito, o parto foi acontecendo.
Perto da uma da manha eu decidi que queria ficar sozinha. Mandei Maksim ir domir com a pequena. Falei pra parteira ir embora e me deixar com um pouquinho de analgesico e florais de Bach.
E me entreguei. Eu precisava disso.
Sentei na poltrona da sala.
Sozinha.
E por oito horas eu fiquei sentada. Só loevantava pra ir pro chuveiro.
No meio da casa, no meio da rua, no meio da cidade que me resignificou.
Era pra eu estar aqui, parindo meu menino, nesse lugar. Agora.
A contracao vinha e eu respirava.
A pedrinha que caia no lago, A flor que abria. Vai abrindo tudo.
Frio, calor, medo.
Eu dormia um tiquinho, acordava e lá vinha ela me destruindo. A contracao. Que odio que eu sentia dela.
E eu respirava mais uma vez.
Assim fomos - eu, o utero e o nosso menino, sendo pedrinha no rio, sendo a flor que abre, sendo dor.
No chuveiro a água caia nas minhas costas e mesmo estando sozinha eu me sentia amparada.
No parto da Norah eu tinha pavor de ficar sozinha, sempre tinha alguem durante as contracoes comigo. Dessa vez eu era a fortaleza. Eu sabia do que precisava.
Quando eu vi já eram sete horas da manha.
Esperei dar oito horas e acordei o Maksim. Sim, estava perto.
O sol veio transformar o parto em cara de parto, bonito, daqueles que a gente ve e se apaixona.
Ligamos a musica alto. Eu abracei o pai dos meus filhos. Ele me deu chá, me lavou, me acalmou.
Ele vestiu nossa menina e levou para a mae da nossa amiga, e fotografa do parto, ficar com a pequena.
Depois chegou ela, a Natalia, amiga e fotografa e logo senti a forca do feminino me abracando. Eu chorei e disse: "Caso eu esteja pouco dilatada a gente chama o taxi e eu quero uma cesárea, entendido?"
Ela me consolou e disse que já devia estar acabando.
E logo, pouco depois das dez horas, chegou a parteira e o exame de toque denunciou: quatro centimetros.
Eu gritei.
Praguejei.
Pedi pra morrer.
Nao queria mais sentir dor.
Eu tinha passado a noite inteira com contracoes pra ter dilatado só 4 cm?
Chegara o momento crucial. A transicao. O momento da covardia, do medo, da anestesia, da cesarea.
E o dotozinho continua a dizer que o periodo de transicao acontece com 10 cm.
A transicao, aquele momento da fase de dilatacao pro expulsivo, acontece quando a mulher está segura. O meu momento foi ali, quando eu sabia que a parteira estava do meu lado.
Mamiferas em perigo ficam dias e dias em periodo de dilatacao e se nao estiverem seguras nao dilatam.
Em meia hora eu pedi mais um toque. Dilatacao total, 10cm.
Eu dilatei seis centimetros e meia hora. Porque ela, a parteira, estava ali.
Perto das onze chegou a segunda parteira, elas sempre trabalham em duas.
Alivio.
Eu podia parir meu menino.
Ouvia o making off de quatro adultos tentando encher uma piscina de crianca. Eu quis rir, aliás, ainda nao sei se ri.
Estava nesse momento cantando "...tao bonito, quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo": Era hora de ver a carinha dele. Eu estava na partolandia.
Fui pra piscina. água quente.
Pouca água.
E já vinha o puxo e eu gritava. Que desespero, nao tinha nenhuma posicao que me acalmasse. Eu tudo que vinha na minha cabeca era a frase em alemao "Was habe ich mir angetun" que diz "o que foi que eu fui fazer comigo mesma". Que dor!
A contracao ia e eu me acalmava, ria.
E vinha puxo e eu respirava fundo e ele nascia devagarinho. Eu sentia a cabeca, que alivio. Ele vinha. E quando ele vinha nao tinha mais dor.
Na hora que a cabecinha dele saiu eu dei um pulo.
Nao queria parir na água. Mas ele já estava ali. Nasceu meio na água, meio no ar. 11:44.
Era ele, todo meu, todo nosso. A parteira amparou e deu pro pai. O pai deu pra mim.
Nao acreditei.
Olhei.
Estranhei,
O reconheci.
Me apaixonei.
Meu menino.
Tao importa o nome, era ele, sempre soube.
De fundo tocava a musica "te amarei de janeiro a janeiro". Na virada pra Áquario, dia 21 de janeiro. Ascendente em Touro e lua em Capricornio.
Como pude imaginar minha vida sem ele?
O narizinho largo, em respeito aos ancestrais.
Enquanto escrevi esse texto ele cresceu.
Foram 9 meses escrevendo um pouquinho de cada vez.
9 meses e o parto ainda está em mim. Inacreditavel. O Cisco ficou um mes sem nome. E uma noite antes de decidirmos eu sonhei com um meninho que engatinhava e o pai o chamava de Leao. No dia seguinte a avó deu a ideia do nome; Leonid. Significa filhote de leao.
Era pra ser.
E o segundo nome: Francisco é pra ter nome de santo. Como disse seu Chico, meu avo. De quem ele herdou o narizinho e o nome.
E hoje, revendo as fotos do parto decidi terminar esse texto. Momento importante para nós dois. Cisco existe quase mais tempo fora da barriga que dentro.
E o amor só cresce.













Um comentário :

Daila Roberta disse...

Esse com toda certeza é um dos meus relatos preferido ���� A força que dar força. Vc é encantadora Fla Saudades bjus e muitos bjus nas crias tmb ��❤����